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Abra sua empresa para o novo!


22 Jul 2016

Por Revista DesenvolveSP - edição 4

O Open Innovation está revolucionando a forma com que as empresas estão investindo em inovação

Que tal ter milhares de consultores, pesquisadores, desenvolvedores e cientistas à disposição de sua empresa? Contar com excelentes profissionais trabalhando para você por produção ou projeto entregue, sem precisar remunerá-los todo mês? Muito prazer, isso é o Open Innovation. Um modelo de inovação aberta que já é realidade fora do País e uma tendência no Brasil, e o melhor, sua empresa também pode participar.

Conceito disseminado pelo norte- -americano Henry Chesbrough, a partir de 2003 com o Livro Open Innovation: The New Imperative for Creating and Profiting from Technology (Inovação Aberta: Como Criar e Lucrar com a Tecnologia), a inovação aberta está cada vez mais presente nas empresas. O Open Innovation é a capacidade de planejar e promover a inovação por meio de agentes externos, compartilhando ideias para novos produtos ou serviços, envolvendo colaboradores, clientes e até mesmo concorrentes no processo de inovação.

Luís Marques, sócio na Innova Consulting, consultoria especializada em gestão da inovação, afirma que mais de 40% das ideias que as empresas mais inovadoras do mundo implementam vêm de fora de suas paredes. “Esses agentes podem ser clientes, cientistas, empreendedores, fornecedores, ou seja, qualquer profissional externo que possa contribuir com o aumento da novidade de um projeto que traga um diferencial significativo”, afirma.

As empresas tradicionais ou já consolidadas que passam por um processo de inovação ou desejam incorporá-la em seu negócio devem se abrir para o mercado. Para Bruno Rondani, um dos maiores entusiastas do tema no Brasil, fundador do Wenovate e da consultoria Allagi, é preciso diferenciar os tipos de empresas para avaliar a inovação. “Existem as empresas mais tradicionais, como as familiares e as franquias, nas quais a maioria não tem objetivo de grande crescimento. E há as startups, que já nascem para propor uma inovação, criar soluções inovadoras. Então existem duas abordagens para inovação”, diz.

Segundo o consultor, há dois caminhos para as pequenas e médias empresas (PMEs) investirem nesse modelo de inovação. A primeira é como requisitantes, em que a empresa coloca o desafio a ser resolvido para o público externo, que pode ser amplo (sem critério de seleção) ou direcionado (por exemplo, cientistas que resolvem problemas técnicos). A outra é como ofertante, participando de programas de inovação aberta de grandes empresas que estimulam a participação de empreendedores e outros agentes em seus desafios.

Como inserir sua empresa nesse universo?

Como requisitante, a empresa pode utilizar o encontro virtual ou presencial com seu público externo. Nas primeiras vezes que buscar o modelo de inovação aberta, é provável que vá precisar do auxílio de um profissional na área, um consultor especializado, pois existem algumas necessidades e requisitos para garantir o sucesso dos projetos.

Esse profissional pode recomendar desde encontros em formato de workshops, painéis de especialistas, discussões em grupo focal e entrevistas, até o uso de ferramentas virtuais como software de ideação (ex: Innovation Central, da Imaginatik), passando por ferramentas simples de comunicação, como os formulários do Google Docs e Skype. Isso depende do orçamento e da necessidade de cada empresa.

Já como ofertante, o empreendedor pode propor soluções de inovação para uma empresa. No Brasil, há grandes empresas interessadas nesse modelo que dão amplas oportunidades para PMEs, como a Electrolux, a Braskem e a Natura. A primeira, por exemplo, oferece a chance de o pequeno empreendedor apresentar soluções para sua linha de produtos que estão sendo desenvolvidos para o futuro, que serão comercializados em escala global.

E hoje em dia existe outro modelo de inovação?

Realmente é difícil pensar a inovação atual sem que haja inovação aberta envolvida, são muitos os cases de sucesso desse modelo. O sistema operacional Android, por exemplo, foi contratado pelo Google para operar nos smartphones, mas uma empresa externa ao Google desenvolveu toda tecnologia do sistema operacional presente em 82% dos celulares no mundo. O Spotify, aplicativo de música, criou a plataforma e a tecnologia, mas para entrar no mercado teve de se aliar a produtores para poder disponibilizar as músicas.

Luís Marques, da Innova, lembra que um dos casos mais emblemáticos de empresa que cresceu bastante com a inovação aberta foi a Embraer. Sua família de jatos EMB 170 e 190 proporcionou um crescimento de 10 vezes na receita. “O projeto de desenvolvimento dessa família foi recorde mundial na indústria aeronáutica, com o menor tempo. Tudo isso foi possível porque a empresa trabalhou na prática o conceito de inovação aberta, principalmente com os seus fornecedores”, ressalta.

Um caso de destaque de pequena empresa inserida no universo do Open Innovation é a gaúcha Engeltec. Especializada em automação de acessos para estacionamentos, a empresa firmou parcerias com grupos de pesquisa na universidade e trabalhou em esquema de cocriação com seus clientes e fornecedores. Atualmente, a empresa detém a tecnologia mais moderna de controle de acesso de estacionamentos no Brasil, que garante maior sustentabilidade e competitividade nesse mercado.

Compartilhamento é chave

A 99jobs, startup digital de São Paulo focada em gestão de RH, se orgulha em afirmar que a empresa é a evolução dos sites de recrutamento. Com a colaboração de pessoas de fora do negócio, como contadores, psicólogos e até biólogos, a empresa desenvolveu uma plataforma focada na troca de experiência dos usuários. “Usamos o perfil pessoal de cada indivíduo e os valores e cultura das organizações como ferramenta de conexão”, diz o CEO Alexandre Telles.

Para desenvolver a tecnologia a empresa bebeu em várias fontes. “Fomos buscar conceitos de psicologia do trabalho, de acadêmicos brasileiros e estrangeiros, consultores de tecnologia e profissionais de várias áreas”, diz. Ele ressalta que a inova- ção, principalmente a aberta ou colaborativa, está no DNA de uma startup. “A mentalidade de inovação é parte do dia a dia de todas as pessoas envolvidas em nossa missão. Não há uma área específica para puxar inovações, esse é um compromisso de todos, não é uma opção”, afirma.

A empresa investe constantemente em inovação. Um de seus novos projetos, o “99match”, está sendo financiado pela Desenvolve SP. Consiste na melhoria e evolu- ção da plataforma e tem o foco no desenvolvimento de ferramentas e conceitos de inteligência para melhorar a identificação do “match” (ou casamento) entre uma pessoa e uma empresa ou uma oportunidade. A partir de preferências individuais, a ferramenta identifica o perfil profissional da pessoa e em que tipo de empresa ela teria mais sucesso ou se sentiria mais satisfeita e produtiva.

De fora para dentro, de dentro para fora

Se a inovação aberta não existisse, provavelmente também não existiriam as startups de tecnologia. Em algum momento de sua vida, elas terão de colocar sua ideia no mercado, onde precisarão buscar investidores, empresas que topem e precisem usar sua tecnologia, algo que vem sendo mais aprofundado no País.

Eventos como a Open Inovation Week e o Movimento 100 Open Startups são grandes oportunidades para empresas encontrarem os tão sonhados investidores. Rondani, da Wenovate, é um dos organizadores desses eventos no País, que reúnem dezenas de empresas, investidores e todo o ecossistema de apoio à inovação aberta.

A Open Innovation Week (OIW) é realizado desde 2008 com o objetivo de unir empresas, instituições e pessoas para debater ideias e discutir assuntos para fomentar a prática da inovação aberta. A programação inclui palestras, seminários, rodadas de negócios e muito network. De dentro da OIW nasceu o movimento “100 Open Startups”, para conectar startups inovadoras a grandes empresas que necessitam de inovação. O movimento recebe propostas de projetos inovadores e seleciona as 100 melhores, que serão apresentadas para grandes empresas e investidores.

Na última edição, em 2015, mais de 1.500 propostas foram encaminhadas. As 100 escolhidas apresentaram seus projetos na edição de 2016 da OIW, realizada no fim de fevereiro, para as 50 grandes empresas parceiras, tais como 3M, Johnson&Johnson, Kimberly-Clark, TIM, Natura, entre muitas outras, além de 20 gestores de fundos de investimentos.

Governo aberto

A inovação aberta também já está sendo aplicada na administração pública. No Estado de São Paulo foi criado o Pitch.Gov, iniciativa proposta pelo governo do Estado que convocou startups a apresentar ideias e soluções de melhoria dos serviços públicos nas áreas da educação, saúde e serviços ao cidadão. Ao todo mais de 300 propostas foram cadastradas e 15 startups foram selecionadas para apresentar suas ideias, e as melhores práticas poderão ser implementadas e se transformar em serviços para a população.

No âmbito federal existe o Startupgov, que promoveu o desenvolvimento de protótipos de inovações nas áreas de educação e gestão pública. Startups selecionadas pelo projeto apresentaram oito propostas de empreendedores, tanto na otimização de serviços, quanto na contenção de gastos.

Fonte: Revista DesenvolveSP - edição 4, p. 32