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Alimentação (e caixa) saudáveis


15 Jul 2016

Por Revista DesenvolveSP - edição 4

Uma oportunidade de negócios com crescimento garantido e ainda capaz de melhorar a saúde, veja tudo o que os alimentos orgânicos podem fazer por você

“Não se esqueça de comer os vegetais.” A sábia frase repetida à exaustão pelas mães às crianças soa como música aos ouvidos de empreendedores atentos a um mercado que cresce apesar da crise. Os produtos orgânicos, aqueles que, entre outras coisas, são cultivados em terras certificadas e sem o uso de agrotóxicos, já movimentam anualmente mais de R$ 300 bilhões no mundo.

Moda, estilo de vida ou saúde. Seja qual for o motivo, o fato é que os alimentos orgânicos estão estabelecidos na vida de uma boa parte da população, e há muitos empresários lucrando com isso. Só nos Estados Unidos, o aumento do faturamento do mercado de orgânicos em 2014 foi de 15%. Além disso, mais agricultores estão cultivando organicamente, com terra certificada, e 51% das famílias americanas estão comprando mais produtos orgânicos, de acordo com pesquisa realizada pela Organic Industry Survey (OTA).

Aqui no Brasil, entre janeiro de 2014 e janeiro de 2015, a quantidade de agricultores que optaram pela produção orgânica passou de 6.719 para 10.194, um aumento de 51,7%, segundo o Ministério de Agricultura. Outro dado interessante é que a expectativa para este ano é de um faturamento de R$ 2,5 bilhões, e os produtos orgânicos agregam, em média, 30% mais valor que os convencionais.

Para se ter uma ideia, o País é um importante exportador de diversos produtos para mais de 76 países, com destaque para açúcar, mel, frutas e castanhas. E todo esse panorama pode evoluir ainda mais com aumento dos investimentos em tecnologia, em infraestrutura e em logística. Mesmo assim, é um fato que esse mercado só cresce.

Alimentação saudável é tendência

Segundo a nutricionista e consultora em alimentação saudável do canal online “Entre Legumes e Verduras” Juliana Tomandl Fontes, os alimentos orgânicos são produzidos sem fertilizantes, pesticidas, hormônios ou qualquer substância parecida, e são cultivados com uma preocupação especial com o meio ambiente, os funcionários envolvidos na produção e também com os habitantes daquela região.

“Os orgânicos têm quantidade maior de nutrientes, como vitaminas e minerais. Eles não contêm agrotóxicos; assim, existe menor risco de desenvolvimento de câncer. Em criança, ameniza também o desencadeamento de doenças neurológicas ou problemas no desenvolvimento (causado pelo acúmulo de agrotóxico no organismo)”, diz Juliana.

O preço relativamente alto do orgânico em comparação com o alimento comum é um fato que ainda impede a popularização desses produtos, no entanto, uma crescente parcela da população já percebeu que em muitos casos o orgânico pode até sair mais barato no longo prazo, se colocarmos na equa- ção os benefícios para a saúde. Para Murieli Silva, nutricionista e uma das fundadoras do projeto Batata Doce, uma plataforma colaborativa online que mapeia agricultores que vendem produtos orgânicos, a “gourmetização” ou até mesmo o estilo de vida que esse alimento traz é que, muitas vezes, aumenta seu real valor. “Sabemos que o natural depende de recursos maiores para a colheita, no entanto temos o caso de um dos agricultores na plataforma, sr. Manuel, que vende suas alfaces por R$ 1,00 e consegue manter a produção e seu sustento”, diz.

 

Projeto Batata Doce

Projeto Batata Doce também é outro exemplo de boas práticas voltadas ao mercado de orgânicos no Brasil. Com início no curso de pós-graduação do Instituto Mauá de Tecnologia com o Coletivo Nexo, ele conta com uma plataforma colaborativa online (e-mail ou Facebook) na qual qualquer pessoa, empresa ou prefeitura pode contatar a equipe para informar onde existem agricultores que vendem produtos orgânicos.

O projeto começou a ganhar corpo quando durante as aulas, a problemática da alimentação saudável foi levantada. “Começamos a estudar sobre o que é se alimentar bem, desde a plantação, ao ato da compra de alimento; de se locomover, até as ações secundárias do simples fato de pôr a comida na mesa. Usando metodologias de etnografia e design thinking, descobrimos que existem agricultores urbanos que plantam alimentos naturais respeitando a natureza, e percebemos que existem pessoas que querem se alimentar bem, mas não têm a informação de como fazer ou, até mesmo, não fazem ideia de o que é se alimentar bem”, conta Maite Troleze, outra fundadora da plataforma.

O objetivo do projeto é fazer uma ligação sustentável entre agricultores urbanos e pessoas que desejam se alimentar com saúde e tenham também uma preocupação social, além do consumo. A compra é feita diretamente entre o consumidor e o produtor, fomentando a economia local. “Quando se consome dos pequenos agricultores, não estamos apenas comendo alimentos naturais, estamos ajudando a desenvolver aquele pequeno sistema econômico. Muitos dos agricultores dependem do cultivo para sobreviver”, complementa. www.projetobatatadoce.com.br

 

Instituto Chão

iniciativas estão ocorrendo ao redor do País para tornar o produto orgânico mais acessível. Um dos destaques é o Instituto Chão, uma instituição sem fins lucrativos na cidade de São Paulo que coloca o produtor em contato direto com o comprador. Todo o orçamento do local fica exposto em um quadro negro sobre o caixa para que os frequentadores do espaço saibam os custos da associação.

Para conseguir fechar as contas, a equipe faz a cada mês um levantamento dos custos de manutenção da associação (recursos humanos, água, luz, aluguel, contabilidade, fretes, segurança, tarifas bancárias, taxas de cartão etc.), que mostra o valor final que precisam arrecadar. A ideia é trabalhar com os princípios da Economia Solidária de forma que haja cooperativismo, comércio justo e consumo responsável.

Tudo o que é vendido no instituto é repassado ao consumidor diretamente pelo preço de compra, e nem os custos do serviço são embutidos. “Tentamos fazer as coisas de um modo diferente, mais transparente e justo com toda a cadeia (do fornecedor ao consumidor), de maneira democrática e ética. Acreditamos que, quanto mais gente vier e contribuir com a associação, mais barato ficará para todo mundo, já que é mais gente ajudando a financiar esses custos, e assim a necessidade de arrecadação diminuirá”, diz um dos fundadores, Luiz Schreiner.

A seleção de produtos vai desde hortifrúti orgânico até geleias, molhos e queijos, além de café espresso, com valor bem acessível e muito abaixo da média da região. Os fundadores que também compõem o quadro de funcionários contam com cerca de 50 fornecedores, muitos deles de assentamentos rurais e cooperativas de agricultura familiar. www.institutochao.org

Fonte: Revista DesenvolveSP - edição 4, p. 27