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Por que a Bolsa pode ser um caminho para pequenas empresas

Exame.com | PME - 21/10/2014
21 Out 2014

Por Priscila Zuini, de EXAME.com

São Paulo – A trajetória ideal de uma empresa é quase como a da vida: nascer, investir, crescer e abrir capital um dia para o negócio se reproduzir. No mercado brasileiro, no entanto, o ápice da oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) é raridade. Hoje, mais da metade das pequenas e médias empresas não enxergam a Bolsa como uma opção viável de caminho a seguir, segundo uma pesquisa feita pela Deloitte em parceria com o Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (IBRI).

Apenas 14% das empresas enxergam na Bolsa uma possibilidade concreta de financiamento. Processos com custos milionários, mentalidade egoísta do empreendedor e falta de estrutura dificultam a vida de quem quer seguir esta via no mercado. A boa notícia é que nem tudo são pedras neste caminho.

Convencer as pequenas empresas de que Bolsa não é lugar só para gigantes fez com que a BM&FBovespa liderasse um grupo, em 2012, para estudar outros mercados. O projeto Ofertas Menores reuniu a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a Agência Brasileira de Inovação (Finep) em viagens a sete países, como Canadá, Austrália e China, para conhecer quais características desses mercados poderiam servir ao Brasil.

Deste grupo, surgiram 12 propostas para tornar a abertura de capital mais próxima das empresas menores. Segundo a BM&FBOVESPA, as propostas principais são isenção de Imposto de Renda (IR), permitir que Fundo de Investimento em Participações (FIP) tenha participação sem a obrigação de atuar na gestão, simplificar o processo e reduzir o custo da oferta e aplicar um programa de capacitação a empresários, por exemplo.

As propostas, válidas para empresas com valor de mercado menor do que 700 milhões de reais, aparecem como benefícios de mão dupla. Para as empresas, houve redução de custo e simplificação do processo de oferta pública de ações e da manutenção da companhia aberta. Para os investidores, isenção de Imposto de Renda sobre ganho de capital vindo de empresas menores. “A boa notícia é que tanto a CVM quanto o governo estão pensando regras para facilitar esse processo, estimulando as PMEs a irem para a Bolsa”, opina Cassio Spina, presidente da Anjos do Brasil, associação que reúne investidores-anjo.

A mentalidade do empreendedor

Mesmo com estímulos, o empreendedor que resolve abrir capital precisa estar pronto para seguir regras claras de governança, o que boa parte das empresas brasileiras não está nem perto de fazer. “O sucesso de qualquer empresa passa pela estruturação e profissionalização. A maior falha das empresas é que o empresário tem a mentalidade de que ele é o dono e vai dar conta de fazer tudo. Ele vai ter que contratar bons jogadores e eles vão ter que ganhar o jogo. Não é ele chutando e defendendo a bola ao mesmo tempo”, compara Michael Viriato, coordenador do Laboratório de Finanças do Insper.

Estar com a empresa organizada é passo fundamental para uma abertura de capital. Lição básica que muitos empresários não aprenderam. “A gente vê muita empresa familiar, com balanço mal feito, sem processos organizados. Para esse cara o mercado é quase impossível. Ninguém aceita comprar ações de empresas que não têm um balanço estruturado, processos confiáveis, profissionalismo e governança corporativa”, afirma Viriato.

Mais do que isso, as pequenas empresas precisam entrar em um ciclo de investimento comum em países como os Estados Unidos. Um IPO é quase sempre precedido por investimentos de fundos, que já começam um processo de organização e governança nas empresas. “Para o médio empresário, não tem atalho. Ele tem que trilhar o caminho de venture capital como fonte de financiamento e consolidar a companhia antes de abrir capital. Eventualmente, depois de quatro ou cinco anos, se houver o precedente do IPO da Dafiti ou do Hotel Urbano, a gente pode pensar que esse ciclo que começa em venture capital desagua em abertura de capital”, opina Fernando de la Riva, diretor-executivo da Concrete Solutions.

A preparação leva tempo

Com um ano ruim, praticamente sem aberturas, as empresas ainda não estão certas de que este é o melhor caminho. No caso do Hotel Urbano, a empresa já fez alguns movimentos em direção do IPO, mas ainda engatinha.

Fundado em 2011 como um site de compras coletivas de viagens, o Hotel Urbano soube se adaptar rapidamente e virou uma agência de viagens online. No primeiro semestre, contratou um novo diretor de desenvolvimento estratégico e estuda a abertura de capital. Em sua quarta rodada de investimento, recebeu 120 milhões de reais do fundo americano Tiger Global Management, em março deste ano. O Insight Venture Partners também já havia investido em anos anteriores.

Com 18 milhões de usuários cadastrados e 650 funcionários, o site vendeu 2,8 milhões de diárias em 2013, mostrando forte crescimento em relação aos anos anteriores. Em 2012, as vendas bateram em 1,6 milhão e, em 2011, em 500 mil diárias. “Apesar de tudo que já construímos e temos muito orgulho do que já realizamos, temos plena consciência de que estamos apenas começando”, afirma José Eduardo Mendes, cofundador e CEO do Hotel Urbano.

Colhendo frutos

Quem já passou pelo que o Hotel Urbano se prepara é a Senior Solution (SNSL3M). Em março do ano passado, a empresa de tecnologia fez sua estreia no segmento Bovespa Mais da BM&FBovespa com forte desvalorização. As ações chegaram a cair quase 20%, sendo negociadas a 9,60 reais. Desde a estreia, no entanto, o valor de mercado da empresa saltou de 94,3 milhões de reais para 124,3 milhões de reais.

A chegada da Senior Solution à Bolsa foi através de uma trajetória quase ideal. Criada em 1996, a empresa especializada em sistemas para o mercado financeiro decidiu ampliar sua atuação através de aquisições. Depois de um aporte do BNDES e de um fundo, fez cinco aquisições até 2010. “Depois dessas aquisições, a gente percebeu, que pelo mercado ser pulverizado e a maioria ser pequena empresa, as oportunidades de aquisição são inúmeras e a gente precisava de um processo contínuo de captação de recurso para viabilizar essa estratégia”, explica Bernardo Gomes, diretor-presidente da Senior Solution.

Com investimentos externos desde 2002 e já consolidada como uma SA, a empresa já estava habituada a ser auditada e prestar contas. “A gente já tinha gestão e governança bastante avançadas, o que fez com que o custo para nos preparar já tivesse sido incorporado ao longo do tempo, por isso não houve choque de gestão quando decidimos abrir capital”, diz Gomes. Desde 2007, a empresa se preparava para o IPO. Depois de duas crises ecônomicas, Gomes viu a “janela de oportunidade” no ano passado. “Essas duas iniciativas frustradas serviram para mostrar que o projeto da forma que estava desenhando não ia funcionar”, diz.

Em 90 dias, a empresa fez a listagem sem ofertas, em 2012, e depois de mais três meses, concretizou a abertura do capital. “A listagem foi um período útil de aprendizado da empresa. Ao mesmo tempo, serviu para que os potenciais investidores conhecessem a companhia”, conta Gomes.

Ao todo, a empresa gastou 300 mil reais com a abertura. “Por ano, o fato de ser uma companhia aberta custa 300 mil reais anuais a mais. É menos do que eu gasto em marketing em um ano e trouxe uma exposição institucional para a empresa maior do que qualquer campanha. O mercado em que atuo valoriza isso, governança, confiabilidade. Institucionalmente, o processo foi importante”, afirma Gomes. Desde a abertura de capital, a empresa já fez mais uma aquisição.

Hoje, além da Senior Solution, outras oito empresas estão listadas no Bovespa Mais. Este segmento da Bolsa é especializado em captações menores do que o Novo Mercado. Este mercado permite que as empresas apenas façam a listagem, sem oferta, e o IPO aconteça até sete anos depois. É uma opção de acessar o mercado aos poucos, aprender com isso, e profissionalizar ainda mais o negócio neste período.

Para Riva, independente do resultado, a Senior Solution seguiu o caminho esperado, com participação do BNDES, e um ciclo de aumento da governança. “Eles mostraram um modelo interessante de empresa de 50 milhões de reais abrindo capital”, diz Riva. “A Senior é um caso interessante. Estamos criando uma cultura para os dois lados, empresas e investidores. Nos próximos anos, a tendência é termos mais IPOs de pequenas e médias empresas e partir daí o mercado pode ir evoluindo”, opina Spina.

Para Clodoir Vieira, consultor da Compliance, estar pronto para receber os novos sócios é essencial neste momento. “As empresas menores têm certa dificuldade de reestruturação em aceitar um sócio que vai chegar e participar do resultado, que vai te cobrar. Muitas vezes falta conhecimento da empresa de como fazer esse papel. A Senior, depois que abriu, passou a dar consultoria sobre isso para outras empresas, tamanha a expertise que criou”, diz Vieira.

A experiência de Gomes pode ser a de outros empreendedores brasileiros. Segundo ele, o primeiro passo é desmitificar o processo. “O pessoal acha que é muito difícil e caro. Mas não é tão difícil desde que seja planejado. Dependendo do tamanho da empresa pode ser um custo relevante ou não, se avaliar o retorno, no nosso caso e em muitos, é melhor do que qualquer outra alternativa de financiamento do crescimento”, explica.

O medo de compartilhar o negócio é a segunda barreira que os empresários devem derrubar. “Empreendedor tem que estar disposto a compartilhar, a ser mais transparente”, diz Gomes.

A busca por investidores, no entanto, pode ser o maior desafio. “Encontrar investidores que entendam a estratégia do seu negócio, que é um investimento menos líquido, mas com potencial de retorno maior.Identificar esse perfil de investidor, que entende que vai ter menor liquidez no momento inicial, mas que no longo prazo vai ter retorno maior, talvez tenha sido a maior dificuldade”, indica o empresário da Senior Solution. Nessa hora, a isenção de IR pode ser um atalho e tanto para convencer estes investidores.

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