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POR UMA EMPRESA MAIS ROSA


17 Jun 2015

Por Revista Desenvolve SP - 3ª edição - Págs. 12 e 13

Apesar de maioria do mercado de trabalho, as mulheres ainda sofrem preconceito para ocupar cargos de liderança

O avanço do sexo feminino no mercado de trabalho nas últimas décadas tornou as mulheres responsáveis por mais de 60% da força de trabalho. No entanto, quando o assunto é liderança, o número de mulheres em cargos de CEO (Chief Executive Officer) ainda é extremamente baixo. Segundo dados do estudo Women in business report, realizado pela consultoria britânica Grant Thornton, o cenário para mulheres ficou ainda pior entre 2013 e 2014. A média global de empresas com mulheres em cargos de CEO caiu de 14% para 12% nesse período.

Atualmente, os três países que mais têm CEOs mulheres são Tailândia (49%), Dinamarca (45%) e Alemanha (40%). Os menores índices são registrados por Reino Unido, Polônia e Hong Kong, empatados com apenas 4% de executivas no topo das empresas. “Globalmente, os setores de educação e serviços sociais são os que mais têm mulheres em posição de liderança (31%), seguidos por saúde (29%). Já os segmentos de mineração (9%) e agricultura (11%) são os que menos têm mulheres liderando”, diz Madeleine Blankenstein, sócia da Grant Thornton Brasil.

Segundo a pesquisa, apenas 24% das empresas apoiam planos de carreira das mulheres. Em cursos ou programas para promover a liderança feminina, como o mentoring, uma espécie de acompanhamento por profissionais mais velhos que orientam e compartilham experiências de gestão com os profissionais em processo de ascensão, por exemplo, ainda são raros os participantes do sexo feminino.

O suporte voltado ao equilíbrio entre a vida pessoal e profissional é quase inexistente nas empresas consultadas. Apenas 6% tinham alguma iniciativa pós- -maternidade, por exemplo. “São poucas as empresas que têm creches ou oferecem oportunidade de trabalho flexível e outros benefícios que permitam que a mulher não precise sempre escolher entre a família e o trabalho”, diz Madeleine.

Jornada dupla

Grávida do primeiro filho, a economista Juliana Costa dirige há 15 anos a área administrativa da Costa Packing, indústria de embalagens plásticas injetadas em Pirassununga, interior de São Paulo. “Mesmo qualificada profissionalmente, se não tivesse aceitado o desafio de tocar a empresa, um negócio de família, dificilmente estaria à frente de outra companhia. Isso, é claro, sem considerar que estou prestes a tirar licença-maternidade”, conta.

O grande erro das empresas, segundo a executiva, é justamente o fato de não assumirem a realidade de que a mulher leva uma jornada dupla. “Na Costa Packing, por exemplo, os turnos de seis horas são válidos tanto para operacional quanto para a área administrativa, algo estimado principalmente pela colaboradora mulher que planeja melhor a divisão de seu dia entre estudos, família e trabalho”, explica Juliana.

Ela conta ainda que conquistar respeito no mercado sendo mulher não foi tarefa fácil. “Comecei jovem no setor em que atuo, um universo predominantemente masculino que ainda duvida de nossa capacidade de operar uma máquina ou tomar boas decisões em cargos de gestão”, afirma.

Para Tamires Vilela, diretora administrativa da RV Ímola, empresa de logística especializada no transporte de medicamentos, o fator cultural é o principal obstáculo enfrentado pelas mulheres no mundo corporativo. “Infelizmente, a mulher ainda é criada para arcar com a responsabilidade quase completa de educar os filhos, o que para muitas se torna um fator impeditivo para construir uma carreira”, diz.

No entanto, talvez por essa mesma educação, Tamires afirma que muitas profissionais extremamente competentes esperam tempo demais para ser reconhecidas no mercado. “Na hora de botar na mesa todo o seu trabalho e negociar uma promoção, elas simplesmente titubeiam, travam, por achar que não deveriam questionar sua importância na empresa. Diferentemente do homem, que quase nunca perde uma oportunidade de se mostrar presente e vender o próprio trabalho.

Conselhos de administração

Os conselhos de administração (CA) de empresas historicamente foram quase uma reserva de mercado masculina. Nos últimos anos a participação das mulheres nesses colegiados vem crescendo e pode disparar em alguns países graças a uma ação que vem gerando polêmica no mundo corporativo: o sistema de cotas para a inclusão das mulheres nos CAs.

Mesmo já em vigor em diversos países, segundo o levantamento da Grant Thornton, a medida vai contra a vontade de 55% dos altos executivos mundiais. A Comissão Europeia, por exemplo, foi a primeira a determinar que até 2020 a presença feminina tenha representatividade de 40% nos conselhos de companhias com capital aberto. Para as públicas, o prazo vai até 2018.

No Brasil, onde a rejeição pelo sistema de cotas é de 43%, ainda tramita no Senado o Projeto de Lei 112/2010, que prevê os mesmos prazos e condições para os conselhos de administração de empresas públicas e privadas listadas na bolsa.

De acordo com Madeleine Blankenstein, a previsão sobre o sistema de cotas ainda não é otimista em relação aos próximos anos. “É um processo trabalhoso, e como não é um processo natural o desenvolvimento é restrito. Mesmo seguindo o exemplo de países como Noruega e Finlândia, não existe garantia de sucesso”, diz. Veja na próxima página o que pensam três mulheres líderes sobre o mercado de trabalho feminino.