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Três empresários que disseram não aos milhões e decidiram manter o controle de suas empresas

Estadão PME - 03/03/2015
03 Mar 2015

Por acreditarem em seus estilos de gestão, eles recusaram propostas de compra de seus negócios

Por Bruno de Oliveira, especial para O Estado

No universo corporativo, é natural que pequenas e médias empresas que se destacam em suas áreas, seja por lançarem um produto inovador ou por ocuparem uma faixa estratégica em algum segmento específico, chamem a atenção do mercado - mercado, no caso, outras empresas com faturamentos maiores ou grupos de investidores interessados em novos parceiros. Dada a relevância que a PME vêm demonstrando, é inevitável o aparecimento destes personagens com uma proposta de aquisição total ou, em alguns casos, de sociedade.

Dizer sim ou recusar uma oferta de compra implica em uma série de fatores que precisam ser analisados e nem sempre trazem vantagens ao empreendedor. O sonho da mala preta recheada de milhões pode parecer tentador para alguns empresários que pretendem se aposentar ou até investir em outros negócios, mas para outros significa apenas que a empresa que lideram está valorizada e, por isso, são avessos à ideia de ver o controle de um negócio próspero nas mãos de terceiros.

"Dizer não é algo muito comum em negociações desta natureza. Nestes casos, o empresário não tinha ideia de que seu negócio era tão promissor e acaba se dando conta disso no processo de conversa com os interessados, acabando por recusar as ofertas e seguir com o comando da empresa", explica Batista Gigliotti, diretor-executivo da Sunbelt Business Brokers, empresa que atua como intermediária em negócios de fusões e aquisições de pequenos e médios negócios.

Um exemplo recente de empreendedor que disse não justamente por conhecer o potencial de sua empresa, e querer ser o único dono do seu destino, foi o da startup Snapchat. Evan Spiegel, à época com 23 anos, recusou uma oferta de US$ 3 bilhões feita pelo Facebook em dezembro de 2013.

"Há poucas pessoas no mundo que conseguem construir um negócio como este", disse Spiegel à revista Forbes, naquele ano, sobre seu aplicativo que permite aos usuários se comunicarem por fotos e mensagens com a opção de apagar tudo depois. Com a recusa, ele conseguiu estampar a capa da edição da revista sobre as "30 pessoas abaixo dos 30 que se destacaram em 15 áreas de atuação", em 2014. Após o episódio, a empresa captou US$ 50 milhões em investimentos e está avaliada em US$ 2 bilhões.

Há casos semelhantes no Brasil de empreendedores que decidiram seguir em frente sozinhos com suas empresas depois de serem sondados por outras maiores. Eloi D'Ávila (foto), presidente do Grupo Flytour, gigante do setor de turismo, quase vendeu a empresa para um fundo de investimentos, em 2009.

"Em uma conversa com meu filho, decidi que a venda da companhia não traria benefícios materiais e pessoais para nossa família. Foi um caminho longo para chegarmos onde chegamos e decidimos trilhá-lo até o fim", disse o empreendedor. Atualmente, o império de D'Avila, que chegou a viver na rua, vender pastéis e engraxar sapatos antes de empreender, congrega sete empresas e fatura R$ 4,5 bilhões por ano.

Outro caso similar é o da empresa de tecnologia Synchro. Em 2012, sua atuação no mercado de sistemas fiscais para médias e grandes corporações fez com que o negócio entrasse na mira de investidores dos EUA e da Europa. Na ocasião, Ricardo Funari, presidente da companhia, recusou as propostas por pensar que a empresa perderia identidade com outros donos no comando. A empresa iniciou suas atividades em 1991 e possui escritórios em São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro e Recife.

Embora recorrentes, as transações que envolvem fusões e aquisições são pouco divulgadas. E isso acontece por elas, na maioria das vezes, ocorrerem regidas por contratos que possuem cláusulas de confidencialidade. Contudo, em 2014, dados da consultoria PwC dão conta de que, no Brasil, ocorreram 260 operações no primeiro quadrimestre do ano. O setor de TI aparece como o que protagonizou mais negócios, com 37 as operações de empresas do segmento.

Entre as transações estão a compra da startup 4Good pela A5 Internet, por R$ 3,5 milhões, e a venda de 70% da Robtec para a 3D Systems. Setor financeiro (27 negócios) e Varejo (26) aparecem também como setores com mais aquisições em 2014.

São vários os atrativos que as PME oferecem aos investidores. Entre eles, estão a vantagem de se adquirir um negócio que já está funcionando, a oferta de um produto já definido ou participação de mercado relevante. "A compra invariavelmente faz parte de um plano estratégico que busca um destes três objetivos", explica Alexandre Pierantoni, da Pactor Finanças Corporativas, consultoria especializada em fusões e aquisições. "O risco desta compra dar errado é menor do que começar um negócio do zero", completa.

Para o consultor, no entanto, fechar as portas para uma proposta de compra pode ser algo ruim se o empreendedor não tiver uma visão total do que o negócio pode representar no impacto das partes envolvidas, além de um ponto de vista real do que o negócio significa sob a perspectiva do mercado. O resultado disso, aponta, pode refletir em uma tentativa de crescimento insustentável por falta de estrutura e capital ou gerar concorrentes mais fortes.

"Antes de dizer não, é preciso, por exemplo, visualizar o que é esperado para o futuro da empresa. Alguns planos de crescimento demandam a presença de um sócio. Investidores também conversam com mais empresas e uma delas pode ser uma concorrente. Dizer não pode fazer com que um investimento que seria interessante seja aportado em um rival, fortalecendo-o", finaliza Pierantoni.

 

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